Cobras e Escalada - por Davi Augusto Marski Filho (em 26.março.2007)
Pessoal !!!
O assunto é super *serio* e merece muita atençao !
Hoje a tarde (domingo, 25 de março de 2007), eu e o Rafael estávamos na Pedreira do Jardim Garcia e íamos iniciar a escalada da “Suicida a Vista”. Já haviámos arrumado o equipamento, o nosso “tapete” estava estendido no chão, o Rafael estava encordado, etc.. e tal… Quando o rafael deu o primeiro passo para fora do tapete, vimos uma cascavel *enorme* no local da “pisada”. O reflexo do Rafael foi tão instantâneo que sequer deu tempo da cobra “avisar” com o chocalho e tudo foi muito rápido : a interrupção do passo, o nosso retrocesso, etc.. e tal.
O nosso coração veio “na boca”, a adrenalina a “milhao”… a sensação preemente de que um acidente acabou de evitar-se por muito pouco, realmente muito pouco…
A cascavel é uma cobra peçonhenta (com veneno) muito comum. Outra cobra muito comum é a Jararaca (e assemelhados). A cobra coral também tem uma certa incidência… Em caso de acidente (como o que quase ocorreu) é fundamental reconhecer a cobra em questão, pois é em função da cobra que será dado o tratamento adequado no hospital. Creio que o hospital Mario Gatti seria a melhor opção de atendimento para um acidente desse tipo (para quem estiver escalando na Pedreira). O negocio mais rápido seria desequipar a vítima, ela caminhar normalmente até o carro (sem mochila, sem carga, etc.. para não acelerar a dispersão do veneno na corrente sanguínea) e então seria seguir pela John Boyd Dunlop, pegar a anhanguera (sentido valinhos) e logo a frente, entrar em Campinas (pela Av. Das Amoreiras) até o Mario Gatti (veja observação ao final quanto ao hospitais).
Vamos voltar aos diferentes tipos de cobras….
Os venenos
tem dois mecanismos de ação principais : o neurotóxico (que afeta as estruturas
nervosas do nosso organismo), que é o caso do veneno da coral verdadeira e o
proteolítico( que destrói os tecidos),que é o caso do veneno da jararaca Para o
nosso azar, existe a associação dos dois, que é o caso da veneno da cascavel
(livrou-se por muito pouco heim Rafael ?!)
Nas picadas por cascavel, a intoxicação com o veneno se manifesta com o paciente apresentando visão dupla, prostração , face com aspecto de bêbado ( com as pálpebras caída), formigamento na região da picada, e a urina pode ficar escura( cor de coca-cola) e pode ter sua produção diminuída ou até paralisada, indicando uma provável insuficiência renal aguda . Os sinais e sintomas para intoxicação com o veneno da coral verdadeira são semelhantes, acrescentando-se a falta de ar que o acidentado pode apresentar, por paralisia da musculatura respiratória. * (veja o final deste texto para algumas adequações de caráter técnico)
Quanto à intoxicação pelo veneno da jararaca, existe uma dor muito intensa no local da picada com irradiação para as imediações, sangramento excessivo (tanto no local da picada quanto em outros locais,como por exemplo a gengiva) e queixas urinárias semelhantes as da cascavel são as manifestações mais comuns. Preferencialmente neste tipo de intoxicação, procure manter o membro picado elevado 45 graus em relação ao corpo para que o veneno se espalhe (dilua), a fim de não lesar de maneira irreversível o local da picada. Caso o sangramento seja muito grande, tente estancá-lo fazendo compressão do local da hemorragia com um pano, por exemplo (por favor, nada de torniquetes !!!)
A cascavel é a cobra que tem o “chocalho” na ponta do rabo, normalmente ela avisa (com o chocalho) antes de atacar. Outra característica da cascavel é o padrão em forma de “diamantes” em seu couro. A cobra coral todos sabem como é… a jararaca é uma cobra mais “gorda e encorpada”, costuma ter uma cabeça “grande” em forma de “triangulo” muito bem definida, etc.. e tal não é em um email que eu vou ter a pretensão de explicar os diferentes tipo de cobra !!! (isso para não falar das lachesis (Urutu) que tem o péssimo hábito de perseguir as vítimas que não consegue picar....)
O que não fazer?
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Para qualquer acidente com cobras NÃO faça cortes ou furos em torno da picada e NÃO tente sugar o veneno!!! (voce só vai aumentar a chance de infeccao e perder um tempo precioso com isso.. alem do que, se for uma jararaca, só vai aumentar a lesao e difundir mais ainda o veneno no local da picada)
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A aplicação de torniquete, ou garrote, NUNCA deve ser feita em com cobras que tenham veneno proteolítico (os que derretem musculos), como a jararaca. Mesmo em acidentes que envolvam venenos neurotóxicos (como o da coral verdadeira) o torniquete NÃO é recomendado, devido ao risco de necrose do membro por interrupção do fluxo sanguíneo no membro garroteado. NÃO faça garrote ou torniquete em qualquer tipo de acidente ofídico.
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NÃO dê bebidas alcóolicas
Resumindo:
- Tente manter a calma
- Tente identificar a cobra (ou lembra-se de todos os detalhes possíveis)
- Procure o hospital ou posto de saúde mais próximo. Faça isso rápido e de forma ágil
Se você se lembrar apenas desses três passos e realizá-los o mais rápido possível, e, é claro, seguir o que não é recomendado, já é um excelente começo
Pessoal, realmente muita atenção. Vamos estar sempre atentos nas caminhadas em lugares onde haja risco de se encontrar cobras (como a Pedreira, por exemplo) , esteja com a vestimenta adequada ( vestindo calça e usando tênis de preferência… na medida do possível vamos evitar ficarmos indo de chinelo havaianas, sandálias, papete…), e evitar colocar a mão em lugares como buracos no chão, prestar atenção na hora de montar os banquinhos de pedra para dar segurança, etc.. etc.. etc..
Depois dessa de hoje, agora o Rafael só tem mais 6 vidas… (uma já foi… rsrsrs).
Em tempo : Nós *nao* matamos a cobra. Aquele é o ambiente natural dela, e nao podemos perder a perspectiva de que os “invasores” somos nós… Pior é pensar que ontem, enquanto o Felipe subia a Suicida a Vista, estavamos todos ali na base da via, sapateando, andando, brincando….
No site http://www.escalada.esp.br/doutorescalada.htm tem bastante informacao para nós, escaladores. O texto foi escrito por um médico (e está bem melhor do que o meu…).
Já no site http://www.cve.saude.sp.gov.br/htm/zoo/peco_dados.html temos dados do Centro de Controle de Zoonoses do Estado de SP. Lá a gente vai descobrir que a incidência de acidentes com serpentes é mais ou menos estável (em 2006 foram mais de 1700 acidentes no estado de SP) e o índice de letalidade (óbito) permanece também mais ou menos estável (em torno de 0,4%).
Em outras palavras… em média, de cada 1000 acidentes com serpentes, apenas 4 pessoas acabam morrendo…. (o que não significa que você deva ficar dando moleza para o azar)
Apenas o hospital da Unicamp (em Campinas), está preparado com a sorologia (anti-veneno) para acidentes com cobras...
A relação dos locais com soro está em : http://www.cve.saude.sp.gov.br/htm/zoo/Zoo_uni1.htm
Quer dizer… o negocio seria realmente ir para o hospital da Unicamp (ao inves do Mario Gatti)….
Uma observação horrorosa : Em Andradas-MG *não* tem soro específico para picadas de cobras ! (o tal do anti-veneno)... isso é realmente muito preocupante para os escaladores da Pedra do Elefante e da Pedra do Pântano... que situação mais complicada !
Vale a pena anotar o telefone 0800-0148110 do http://www.ceatox.org.br/ , que embora seja especificamente sobre intoxicação, pode orientar e informar o hospital com anti-veneno mais próximo. Além é claro, do tradicional 193 (Bombeiros) ou 190 (Polícia Militar), que podem auxiliar no transporte da vítima até o hospital.
E chega !!! vamos escalar !!!
Observações finais (de caráter técnico):
A Andréa Cristina Roncaglia Duarte, do Centro de Ciências da Vida (Puc-Campinas), também é escaladora e mandou-me um adendo com algumas correções (que em virtude do meu texto acima devem ter feito os biólogos pularem na cadeira), as quais elenco a seguir (dei uma rápida ajeitada no texto para fins de clareza) :
Os venenos da casvavel não tem ação proteolítica a qual causa necrose e é a manifestação local mais importante dos venenos proteolíticos, podendo causar distrofias e deixar seqüelas. A infecção observada nessas lesões é de origem controvertida, podendo estar relacionada com a flora bucal da serpente. a ação proteolítica faz necrosar (apodrecer) o local da picada, no caso, as jararacas e as surucucus.
Já quanto ao termo "peçonha", existem serpentes que podem ter ou não a peçonha, isto é, a serpente peçonhenta possui estrutura que possibilita a inoculação do veneno (isto é, não é apenas venenosa, a serpente pode ser venenosa e não ser peçonhenta.....).
O veneno de Crotalus ssp (cascavéis) está relacionado "apenas" (se é que pode ser apenas, rs...rs...rs...) com as ações Neurotóxica: Age no Sistema Nervoso. Este tipo de ação é encontrada nos venenos de Crotalus - cascavéis e Micrurus - coral.
A fração neurotóxica do veneno crotálico atua na membrana pré-sináptica da junção neuromuscular, impedindo a liberação do mediador acetilcolina. Nesta circunstância a administração de anticolinesterásicos é ineficaz, uma vez que não reverte o bloqueio provocado pelo veneno. As neurotoxinas elapídicas atuam tanto a nível pré como pós-sináptico, dependendo da espécie de Micrurus que se considere. Nos venenos de atividade pós-sináptica os sintomas podem ser revertidos com o emprego de anticolinesterásicos, como a neostigmine.
- Miotóxica: a ação miotóxica sistêmica é encontrada nos venenos das serpentes do gênero Crotalus - cascavéis. Foram constatadas lise e necrose de fibras musculares com liberação de enzimas e detecção de mioglobina livre na urina. A mioglobinúria é responsável pelos quadros de insuficiência renal aguda.
- Coagulante: o sangue de uma pessoa acometida pela picada de uma serpente que apresente tal atividade, torna-se incoagulável (a protease - enzima que degrada proteína - existente na peçonha promove uma diminuição no estoque sanguíneo das moléculas responsáveis pela coagulação sanguínea)





Comentarios
Este final de semana, com feriado prolongado, estive escalando em Andradas (MG). Tudo muito legal lá no www.abrigopantano.com , encontrei um pessoal de Curitiba (presidente da CPM, Hilton Benke, Pedro Hauck), a Samantha Chu da Femesp, Janine Cardoso, Filippo Crosso… Foi bom ver o Jacaré, a Daniela, a Nice…
Bom… a trip teria sido perfeita se eu não tivesse pisado em uma cascavel… vou encurtar a história : quando fomos fazer o rapel para acessar a via ‘du jacaré’ e sair da pedra do elefante, eu acabei pisando em uma cascavel que estava na trilha… ela chegou a bater na minha perna: não sei se foi um bote ou não, o fato é que não fui picado por muita, mas muita sorte… Dei um pulo enorme, a cobra se retorceu toda e entrou embaixo de uma pedra que estava nas proximidades…
Mais do que nunca, fica novamente o alerta para as pessoas lerem este texto e tomaram muito, mas muito cuidado mesmo, ao caminharem em ambientes naturais.
Um calça e um calçado já ajudam muito !
O q quero dizer eh q cada um tem um tipo de reação alguns correm, alguns matam, alguns gritam rsrsr, mais nessa experiencia q tive pude perceber q ela teve mto mais medo de mim do q eu dela...
abraços...
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