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Dia 04 de abril de 2008 tivemos a presença do escalador Maurício "Tonto" Clauzet, que brindou-nos com uma palestra sobre a expedição à 5a. maior montanha do mundo - o Makalu, situado na cordilheira do Himalaia.

Sites :  http://mauricioclauzet.pro.br/

 

 

Confira um breve relato da expedição, sob a ótica do Maurício Clauzet e publicado no site da empresa de roupas técnicas para montanha "Solo":


Com o apoio da SOLO, que providenciou um guarda-roupa completo para mim, fui em 2006 realizar um sonho, que era tentar escalar no Himalaya, alguma das 14 montanhas que tem mais que 8000m de altitude.Toda expedição foi uma grande aventura, mesmo antes de se tornar real e ainda estar no campo mental da vontade... em meados de 2006 o Irivan Burda e o Waldemar Niclevicz me convidaram para participar de uma expedição para escalar o Makalu (8413m, a quinta montanha mais alta do mundo, atrás do Everest 8611m , K2 8611m, Kanchenjunga 8586m e Lhotse 8516m). O esquema seria de uma expedição barata, low profile, e que cada um pagaria uma parte do racha dos custos da expedição com recursos próprios. Enfim, cada um que se vire para pagar a sua parte.

O começo da aventura foi não ter nem o tempo nem o dinheiro para ir na expedição, só a fé de que tudo dá certo no final, se não deu certo ainda. No fim tudo foi se acertando, sai do trabalho, tive parte dos custos coberta por um patrocinador, a Axia Consulting, o restante eu pude cobrir do meu próprio bolso. Tive o apoio da Solo que resolveu toda minha questão do vestiário, fora as peças muito específicas, como o macacão de pluma. E quando me dei conta estava embarcando para Kathmandu.

Em Kathmandu encontrei o Irivan e a Márcia, e cuidamos dos finalmentes organizacionais da expedição, pesquisamos e compramos o equipo que faltava, oxigênio, estacas de neve, corda...

Sobrou um tempinho e nós três aproveitamos para fazer um trekking clássico do Nepal, o trekking do Vale de Lang Tang. Lindo, e foi ótimo para respirar um pouco de ar da montanha e sair do agito e barulheira de Kathmandu. Este vale é lindo, e nosso ponto final foi o vilarejo de Gyaltsan Gompa (3900m). Aproveitamos para subir uma montanha próxima, o Tserko Ri, com 5000m.

Voltando para Kathmandu, foi bem corrido, fomos buscar o Waldemar no aeroporto, organizar toda tralha, e depois dias depois estávamos voando em um pequeno avião para Tumlingtar, a 400m de altitude, onde começa a longa caminhada de 122Km, que nos tomou 10 dias, até o Campo Base do Makalu, a 5700m de altitude.

A caminhada foi dura, também pegamos trechos com tempo ruim, nevasca, frio, chuva... Mas ao mesmo tempo estávamos vendo um Nepal super tradicional. Esta caminhada não está nos trekkings famosos e clássicos do Nepal, como o do Everest, o do Anapurna e o próprio Lang Tang. Percorremos lugares que não vivem do turismo, simplesmente porque não há turistas, apenas umas poucas expedições por ano. Incrível passar por vilarejos onde a molecada ficava espentada por você ter pelos na perna. É um outro mundo, e lá você é o E.T.

Até o quarto dia de caminhada, passamos por alguns vilarejos. Do quarto dia em frente, cruzamos 3 passos de mais de 4000m, e daí para frente não há mais vilarejo algum. Só acampando e carregando todas suas provisões. E que não é pouco, pois além de todo equipo de escalada, ainda é necessário levar toda infra estrutura do campo base (cozinha, barraca refeitório, etc etc) e comida para os 2 meses que vamos ficar fora. Na ida foram 54 carregadores. Cada um leva em torno de 25 a 30Kg. Alguns levam mais que 30Kg!!! É impressionante, e sempre levam a carga em um cesto que é carregado através de uma fita apoiada na testa.

O Campo Base do Makalu, a 5700m, é um dos campo base mais alto de todos os 8000m. O último dia de aproximação, que sai de 5000m e vai até 5700m é bem sacrificado e vai por uma trilha indefinida sobre uma mistura de glaciar e moraina. É um trecho perigoso, pois quando esquenta o dia blocos e pedras se desprendem do gelo e vão diretamente na direção de onde passa o caminho. É bom passar cedo, no frio da manhã, e rápido, sem enrrolar nem parar. Na ida quase me dei mal, estava caminhando por uma encosta inclinada e subi em um bloco do tamanho de uma geladeira. O bloco inteiro então girou e começou a descer a piramba. Eu caí de costas no pedregulhal da piramba, e por sorte a mochila amorteceu a queda e a geladeira de granito não passou rolando por cima de mim. Isso porque a gente nem tinha chegado ao campo base... e fiquei imaginando as consequencias de por exemplo quebrar uma perna alí, a 6 dias (com 3 passos) do vilarejo mais próximo, ou há 2 dias do lugar mais próximo que o helicóptero pode pousar. Nessa hora senti o real comprometimento da escalada que estávamos começando, e ficou muito claro que é fácil abotoar o paletó de madeira em um 8000m. Não pode dar mole de jeito nenhum.

O campo base é alucinante. Em um promontório de pedra no meio do glaciar. De um lado a vista incrível do Makalu. De outro todo cordão de montanhas do vale Barum, e atrás um glaciar meio em cascata com seracs de mais de 30 metros e formas incríveis. Super astral, principalmente porque estávamos sozinhos lá e assim ficaríamos, pois nesse ano a nossa expedição seria a única a tentar o Makalu. Por um lado era fantástico estar lá só a nossa expedição, por outro lado significava mais trabalho duro, pois todo trabalho de levar as cordas para cima e fixá-las nos trechos mais perigosos ou técnicos em geral é dividido entre todas expedições, e no caso, faríamos tudo sozinhos. Outro ponto é o de abrir o caminho e manter ele aberto. No nosso caso, cada vez que nevava, tínhamos que gastar bastante energia abrindo novamente o caminho na neve fofa, que em uma montanha com mais gente também acaba sendo um trabalho mais distribuído. Por outro lado, este ano o Everest recebeu 51 expedições e a maioria delas expedições grandes, de muitos escaladores e sherpas, não apenas 5 como a nossa. Aí já é o extremo oposto, onde você encontrará todas cordas fixadas e o caminho sempre aberto e marcado, mas por outro lado acho que é difícil desfrutar da paz da montanha assim com tanta gente, e surgem outros perigos também pelos "congestionamentos" nos trechos mais duros e técnicos.

No Makalu pode-se optar por 3 ou 4 acampamentos para cima do Campo Base. Nós optamos por 3. E logo inciamos o trabalho de abrir o caminho e instalar o Campo 1. Depois disso baixamos e ainda mais uma viagem para abastecer o Campo 1 com mais material e tentar equipar com cordas o Makalu La. "La" significa passo ou colo em Nepalês, e este é um grande obstáculo na escalada do Makalu, uma encosta mixta, de rocha gelo e neve, íngreme e que vai de aproximadamente 6700m até os 7300m do colo. Nesse dia consegui chegar até próximo dos 7000m e o Irivan e o Waldemar conseguiram subir mais e fixar mais cordas, trabalho duro, pois o tempo deteriorou bastante e nevava e ventava. Apesar da garra dos 2 ainda ficaram longe do topo do Makalu La. O clima não colaborou muito nesta temporada, e praticamente todos dias começavam azuis, lindos, mas entre meio dia e 3pm já estava fechado e para cima dos 6500m sempre nevando. Essa foi a rotina de todos dias.

Na terceira subida ao Campo 1, com a expectativa de chegar ao Makalu La e colocar o Campo 2 lá nos 7300m, o tempo piorou muito e temos nevasca a noite inteira, assim decidimos descer ao Campo Base e não conseguimos fazer nada para adiantar no Makalu La.

Em uma dessas idas e vindas para o Campo 1, em um lugar que já havíamos passado muitas vezes, o Irivan cai em uma grande greta, e foi um grande sufoco. Por sorte não rolou nada sério, mas poderia ter sido muuuuuuuito sério. Anjo da guarda forte o do Irivan, e grande cagada nossa de andar desencordado no glaciar... Mas no entanto,  no fim, para escalar um 8000m vai haver situações em que você terá que andar desencordado no glaciar... Eu mesmo fiz esse mesmo caminho depois não só desencordado como sozinho. Desnecessário dizer que fiz, mas fiz com o cú na mão.

Nosso tempo já está se esgotando, e já temos uma data marcada que vão chegar os carregadores par irmos embora. Essa será a última ida ao Campo 1... E ou sai o cume agora, ou não sai mais neste ano. Eu já tinha consciência que para mim seria virtualmente impossível o cume do Makalu naquela altura do campeonato. O Irivan e o Waldemar estavam bem melhor que eu fisicamente, escalando mais rápido e com uma disposição de encarar subir mesmo com o tempo deteriorado que eu na minha condição não estava encarando mais. Meu plano era subir o máximo que eu conseguisse mas ao mesmo tempo que ao desistir que eu não comprometesse uma boa tentativa dos 2, que quem sabe teriam alguma chance. Esperava chegar até o Campo 2, no topo do Makalu La a 7300m pelo menos.

Saímos do Campo 1 como de costume super cedo, 4am. Dia querendo amanhecer, limpo, vento médio e constante e super frio e azul como toda manhã. Saímos encordados os 4, eu Irivan, Waldemar e Pemba Sherpa. No começo da rampa mais ígreme do Makalu lá, a cerca de 6800 eu tive que parar. Não seintia muito frio no corpo como um todo, mas minhas mãos estavam duras de frio. Quando fui abrir a mochila percebi que estava com problemas de coordenação com as mãos. Não conseguia fazer encostar o polegar no indicador, parecia simplesmente que a mão era de outra pessoa e não a minha, ela não obedecia. Percebi que a situação estava meio complicada, e que seria complicado eu prosseguir assim, pois como conseguiria manusear a corda e os equipamentos dalí por diante no Makalu La? Decidi que ia voltar, e me ajudaram a desencordar. Eles tinham pressa pois sabiam tudo que iam ter que encarar ainda hoje para chegar no lugar do Campo 2, fora a história do tempo sempre melar no fim do dia. Assim os 3 seguiram para cima e eu ia para baixo. Tive que usar as 2 mãos para abrir a fivela tridente da mochila e pegar mais uma luva. Depois eu vestia a luva mas não conseguia fazer um dedo entrar em cada buraco, sempre tinha um buraco da luva que acabavam entrando 2 dedos juntos. Fiquei um pouco preocupado de estar lá nessa situação, e agora sozinho. Estava levando o oxigênio na mochila, e resolvi que talvez fosse uma boa dar uma mamada e descer tranquilo pro Campo 1. Com muito custo consegui colocar a máscara, mas o pior é que por causa da mão não consegui abrir o registro do regulador. Nem usando as duas mãos. Nessa hora fiquei preocupado e tudo que pensei é que precisava chegar logo no Campo 1, no bote salvavidas que é a barraca........ E afinal estava lá sentado super incomodo e perigoso na piramba, e parado, o frio só tinha aumentado. Enfiei a máscara na mochila e me pus em marcha. No começo foi tudo bem, mas no final, já perto da barraca, eu estava já andando com um pouco de sacrifício. Cheguei na barraca, que felicidade, saí do vento e me enfiei com toda roupa que estava no saco de dormir. Percebi então que cheguei lá na beira da hipotermia. Tinha muito frio, e por causa do frio estava com dificuldade de controlar a respiração. Só fui realmente me sentir "quentinho", quando bateu o sol na barraca. Nessas Irivan, Waldemar e Pemba continuaram tocando para cima... E chegaram em meio ao tempo ruim e nevasca já de noite no topo do Makalu La para colocar a barraca no Campo 2. Nevou bastante durante essa noite. Eu permaneci no Campo 1, a 6600m, e no dia seguinte os 3 saíram com a barraca para tentar chegar ao Campo 3, a 7800m e assim estar em condições de fazer a tentativa de cume. Em função da neve fofa, ele avançam lentamente, e colocam um acampamento 3 intermediário não previsto, a 7500m. No dia seguinte resolvo descer sozinho do 1 pro base, e eles seguem mandando para cima, e finalmente plantam a barraca onde devia ser o campo 3 a cerca de 7700m. Meu caminho de volta ao Campo Base sozinho foi duro, pois estava com uma mochila hiper pesada, afinal já estávamos desfazendo o Campo 1... Tinha que trazer tudo que pudesse e que eles não fossem precisar ao retornar de cima para o Campo1. Nessa minha volta sozinho, enfiei uma perna em uma greta e depois em outra até a cintura. Senti o risco e o medo de não chegar até o Base... No fim tudo deu certo e cheguei ao Base me arrastando de cansado com minha mochila porpeta de chumbo.

No Base com a Márcia passamos a acompanhar pelo rádio os caras lá em cima. No dia seguinte Irivan e Waldemar partiram 4am em direção ao cume. No entanto, eles logo perceberam que com o tanto de neve fofa que havia, e assim a velocidade lenta que eles avançavam, que não seria viável o cume. E assim voltaram.

Bom, contando assim parece tudo muito simples e tal, mas na real é muita história e é uma experiência riquíssima. Infelizmente é muito pouco descrever 3 meses de uma aventura como essa em 1 ou 2 páginas. Foi tanto tempo que na volta, lugares que passamos caminhando no gelo e na neve, no branco total indo para o Base, na volta viraram um lindo bosque de Rododendros e um monte de sague suga.

Fico muito grato de termos todos voltado com vida e inteiros da expedição, e se não saiu o cume, boas, a experiência vivida já vale por si só, mesmo sem cume.

Para mim a aventura ainda continuou... depois do Nepal, no caminho de volta para o Brasil, ainda parei na Espanha e fiz uma trip de bike por 3 meses nos Pirineus, as montanhas que definem a divisa entre Espanha e França, mas isso já é outro capítulo!

Buenas olas

Maurício Clauzet "ToNTo"

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